Por Fábio Soares Pinto
Estudante de História – Unisantos
Acordava na manhã da terça-feira e a TV estava ligada, o canal era o Futura, pertencente à Globo. O programa era um desses documentários educativos, com uma linguagem meio “Telecurso 2000”, falava sobre a “questão agrária”, sem grandes inovações, criticava veementemente o histórico latifúndio brasileiro.
Pelo assunto não representar, para mim, grande novidade, troquei de canal para ver as notícias da manhã, no caso, as divulgadas pelo “Bom Dia Brasil”, do canal Mãe do mesmo grupo que o Futura faz parte.
Eis que vejo pela primeira vez as “horrorizantes” imagens do MST passando com um trator por cima dos laranjais.
O latifúndio criticado pelo canal anterior eram as grandes fazendas de cana-de-açúcar instituídos desde o inicio da colonização do Brasil. Estes eram produtivos, mesmo assim, hoje, são objetos de crítica. As fazendas de laranja da Cutrale também são latifúndios produtivos, mas, não são criticados.
Nota-se então que é fácil para eles criticar algo que está lá no passado colonial e muito difícil enxergar o mesma coisa quando existem interesses econômicos maiores.
Qualquer latifúndio é ruim, não adianta chamá-lo de agro negócio, mudar o nome não o torna bom, no máximo engana. Tal sistema é notoriamente contra-desenvolvimentista, as regiões e países que basearam suas economias nesse tipo de produção hoje se encontram entre os mais pobres.
Os laranjais da Cutrale só possuem uma diferença em relação às tão criticados latifúndios do passado, a espécie da planta cultivada. Naqueles exercícios triviais da matemática que resolvemos nos nossos primeiros anos escolares, tanto faz se os objetos do problema são laranja ou bananas, o resultado é o mesmo. Nos problemas sociais e econômicos idem, o resultado é o atraso, a exploração e a pobreza.
A Cutrale possui latifúndios de laranjas que não se tornam alimentos para a população, nem sobremesa, pois, quase a totalidade da sua produção é exportada.
Bem antes da chegada do MST, aquelas terras que estavam destinadas à colonização de imigrantes italianos, foi invadida por madeireiros que as desmataram, grilaram e venderam a empresas como a Cutrale.
A radicalização das lutas no campo
Seria certo eu defender a “justiça com as próprias mãos” promovidas pelo MST? Não sei, porém, cabe a mim compreender o processo ao analisar seu histórico.
Esse processo de grilagem começou há 90 anos e o próprio governo federal, através do INCRA, há 15 anos reivindica na justiça a devolução dessas terras à união. A justiça local, bastante suscetível aos interesses econômicos dessas grandes empresas, para evitar julgar o mérito da questão, preferiu determinar que o INCRA não teria competência para interpor esta ação, desta forma conseguiu protelar a decisão que ainda está em aberto.
Portanto, diante de tanta incapacidade da justiça em resolver essas questões agrárias, não é de me estranhar que os movimento sociais radicalizem.
De qualquer forma, a questão não pode se limitar à discussão judicial, a questão não é se a terra é produtiva ou não, mas sim de que forma ela serve ao povo, pois, esta propriedade privada é inevitavelmente um roubo, já que todas elas só ganharam um dono quando o primeiro a invadiu, colocou uma cerca e se proclamou proprietário.
Diante da dura realidade, a radicalização é a única opção do trabalhador ao destino que fora narrado por Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto:
Funeral de um Lavrador
Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estás mais ancho que estavas no mundo
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo


a unisantos fechou doi centros de estudos do curso de história, cade os representantes e o ces? talvez não dê ibope!?
fabio, parabéns pelo texto. gostei do paralelo entre os dois programas. o texto é crítico e lúcido, digno de um sujeito politizado e antenado com as questões históricas. abraço!!!